Sócia Atleta: Conheça Ana Alice, atleta da Ferroviária

 Sócia Atleta: Conheça Ana Alice, atleta da Ferroviária

Foto: Millena Cravo/ Ferroviária SA

Natural de Porto Firme (MG), Ana Alice acumula muita experiência e bagagem na modalidade. A fera que faturou o título da Libertadores recentemente pela Ferroviária bateu um papo super especial com a gente. Confira:

Turbilhão Feminino – Conta sobre o início da sua carreira e os maiores desafios pelos quais passou.
Ana Alice –
Comecei com seis anos de idade e como muitas meninas, jogando no meio dos moleques, nas ruas, o tempo todo dia todo não só futebol e na época exista muito preconceito. Hoje ainda tem mais não tanto como naquela época, tinha vários apelidos: Maria Homem, Macho e Fêmea, que mulher não sabe jogar, bola era coisa só de homens. Eu sempre quis ser jogadora de futebol, assistia na TV e sempre me perguntava se um dia eu ia poder ver ou estar perto delas. Graças a Deus minha mãe sempre me apoiou em meio a tudo que falavam, ela estava do meu lado e isso foi muito importante para mim. Saí de casa com 16 anos e passei em vários times das redondezas da minha cidade. Tive que aprender muita coisa em uma semana, joguei em vários times, trabalhei em restaurante, entrei numa escolinha de futebol onde a dona do lugar que trabalhava me ajudou muito, me colocou na mesma escolinha em que o filho dela, então, tive várias pessoas que me ajudaram muito.

TF – A importância do Juventus – SP e Botucatu para a sua formação.

AA – Fiquei 8 meses no Atlético-MG até que duas amigas me chamaram para ir para o Juventus para tentar um teste lá e tentar uma peneira, peguei minhas coisas e arrisquei, fui para São Paulo, chegando lá eu passei na peneira e fiquei um ano, foi bem interessante a experiência, porque todas aquelas meninas que eu apenas via pela TV (principalmente do Santos), eu joguei contra e tive a oportunidade de jogar contra e foi onde comecei a entender alguns desafios, onde eu comecei minha carreira profissional. Depois do Juventus tive que voltar pra casa durante um ano, logo em seguida surgiu a oportunidade para ir pra Botucatu e acho que foi o momento mais difícil da minha carreira, talvez da minha vida, eu tinha arritmia e fui obrigada a ficar quase cinco meses parada sem poder jogar, sem treinar, só me cuidando. Foi um momento bem difícil, fiquei me cuidando, fazendo todos os procedimentos e exames necessários e as meninas também me ajudaram me dando muita força. E foi assim durante cinco meses bem difíceis, mas graças a Deus consegui me cuidar e lá me deram todo o suporte possível. Depois de quase cinco meses fiz todos os exames médicos e pude voltar sem problema.

TF – Como foi a experiência no Kiryat Gat e como foi o processo de adaptação em Israel?
AA – Eu fui basicamente a segunda brasileira a ir pra lá! Fui conhecer e não vou mentir, tinha receio por causa de tudo que se fala na TV, mas naquela época, a Michelle Santos que estava lá, conversei com ela, perguntei como era e ela deixou as coisas bem claras para mim, foi quando fiquei mais tranquila. Eu não sabia falar inglês, que é bem difícil e a Michele me ajudou muito em relação a isso também. No primeiro ano a cultura é totalmente diferente, fuso horário também são seis horas. A adaptação foi bem complexa, muito complicado, mas depois consegui me adaptar. A comida também é muito diferente do Brasil, mas consegui também levar. Fiquei dois anos e nesses dois anos que fiquei, fui campeã da Liga mais importante de lá. E graças a Deus saí de lá bicampeã da Liga.

Ana Alice atuando pelo Benfica (Portugal) Foto: Cátia Luís / SL Benfica

TF – Fora do Brasil você passou também pelo Benfica, como foi a experiência e em quais aspectos você considera que está a maior diferença entre o Futebol Português e o Futebol Brasileiro?
AA – Eu recebi o convite para jogar no Benfica de Portugal. Estavam montando a primeira equipe de futebol feminino lá e não só eu, mas outras brasileiras foram convidadas para fazer parte daquele momento histórico. E eu não pensei duas vezes e eu aceitei também ir para outro país incrível. A língua é igual, comida também bem parecida então não foi difícil a adaptação, pelo contrário foi muito fácil. Em relação ao futebol eu creio que o Brasil está muito acima desses todos, em relação tanto a Israel como Portugal, porque é mais mais intenso e mais técnico, muito mais intenso e também lá já é mais contato.

TF – Na posição que você atua, sabemos da importância de uma saída qualificada. Como você avalia essa habilidade?
AA – Em relação a isso acho que dá uma segurança maior para a equipe e também principalmente para a goleira. Tem algumas que não conseguem bater um tiro de meta, então é uma opção a mais. Além da transição de jogadas, a gente tenta muito fazer isso, o nosso estilo de jogo e principalmente da nossa treinadora, é bem usar a saída de bola, achar os passes certos, fazer a bola caminhar melhor e passar pelos pés de todas as jogadoras. Para sair uma jogada mais cadenciada, né, ao invés de só no chutão, isso tem ajudado bastante a gente. E eu tenho me adaptado bem também, consigo também sair jogando, está sendo muito bom.

TF – Você jogaria em outra posição? Qual?
AA – Quando eu jogava no Rio Preto com o treinador Chicão, ele de vez em quando me colocava no ataque, até que deu certo em alguns jogos e eu gostei, assim, claro, que eu não sou expert, mas se for pra ajudar e se eu puder, por que não. Acho que sempre quando dá pra ajudar é bom. Então, creio eu que no ataque talvez.

Foto: Jéssica Maldonado / Grêmio FBPA

TF – Como você encara a disputa por posições dentro das equipes?
AA – Em relação a disputa, pelo menos em todas as equipes que eu passei  a  disputa sempre foi só com as outras zagueiras, que é essa disputar por vaga que sempre foi sadia, uma ajudando a outra e eu sempre fui a companheiras delas e vice-versa. Sempre a gente sempre apoiava uma na outra. Eu nunca tive esse problema da disputa de forma ruim, pelo contrário, sempre foram sadias e sempre a que estava melhor. Aqui mesmo em Araraquara, temos cinco zagueiras, mas a gente quer o bem para a equipe e joga quem está melhor e uma sempre está ajudando a outra e apoiando. E tem sempre muita conversa, “ó você precisa melhorar aqui, errou ali”, mas sempre uma disputa sadia, não tem isso de uma torcer contra a outra. Graças a Deus nunca aconteceu comigo e se ganhar, ganha todas, se perder, perde todas. Somos uma família, um conjunto e temos que fazer o que é melhor para a equipe.

TF – Você considera importante ter mulheres em posições de comando para que haja uma evolução do futebol feminino?
AA – Essa questão de mulheres no comando, acho que os títulos de várias treinadoras vem falando por si só né? Mostra que a mulher pode sim comandar uma equipe de futebol, tanto no feminino quanto no masculino, temos um bom exemplo que é a Pia, que está fazendo um trabalho excepcional na Seleção. E também a nossa própria treinadora, que acabou de ser campeã da Libertadores. Acredito também que a treinadora entende melhor nós jogadoras, isso ajuda bastante também, no diálogo entre atletas e a Comissão. Eu tenho certeza que cada vez mais vai evoluir, crescer mais e vai aparecer mais mulheres no comando. Nós só precisamos ver oportunidades, né? Mas tenho certeza que daqui há alguns anos, aparecerão muito mais.

Desejamos a fera Ana Alice sucesso na sua caminhada, que todos os seus sonhos e objetivos se realizem. Aproveitamos a oportunidade para agradecer a atleta pela disponibilidade com nosso projeto.

Edição: Fidel Costa / Natália Trapp – @turbilhaofeminino

Fernanda Barros